segunda-feira, 11 de novembro de 2013
domingo, 10 de novembro de 2013
Dia oficial da tristeza
Se tivesse que eleger um dia oficial para a tristeza seria, sem dúvida, o domingo. Abomino domingos. Não gosto de acordar neles. São dias tristes, sozinhos, mal companhados, vazios. Fazem-me pensar e eu não gosto de pensar, fazem-me sentir e eu não gosto de sentir, faz-me cair no real e eu prefiro ir sonhando.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Não vou permitir que me façam duvidar de mim
Não vou permitir que me façam duvidar do que sou e se há coisa que sei ser é boa. E não estou a falar de boazona nem de boazinha, mas aquele boa que fica ali no meio termo entre a mania do que se é e a aspiração do que se deveria ser.
Fazer de nós o que queremos ser dá trabalho, sobretudo quando insistem connosco numa coisa que nós sabemos que não somos. Não me vou desculpar se tiver que dizer que não, embora saiba que te possa magoar. Não vou fazer o que não é suposto porque me dizes que te dá jeito. Não vou trabalhar para ti porque achas que é um direito teu. Ser o que somos e o que queremos ser dá trabalho porque não vamos agradar sempre. E depois de não agradarmos, o bom que sempre fomos fica para trás. Afinal já não somos assim tão bons, pelo menos para os outros, porque para nós, seremos sempre o melhor que soubermos ser.
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Eu sei, mas não devia...
EU SEI, MAS NÃO DEVIA
Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que
não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque
não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se
acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar
o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o
tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho
porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado
sem ter vivido o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita
os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não
acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler
todo dia da guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A
sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava
tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para
ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para
pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar
mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios.
A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser
instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de
cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se
acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia
dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando
não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o
cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia
está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro,
a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o
que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma
para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto
acostumar, se perde de si mesma.
Marina Colasanti
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Se pudesse gritava palavrões bem alto, ao invés, escrevi...
Pedir a alguém que se anime quando está triste, em baixo, sem vontade de nada é o mesmo que pedir a alguém que está com alzheimer que se lembre das coisas.
É possível dar espaço às pessoas para se sentirem mal, solitárias, amarguradas com vida, raivosas, irritadas? Se tudo correr bem, isto passa, há-de passar, mas pelo amor de deus, não me venham com a merda das receitas mágicas do anima-te, precisas é disto ou daquilo, como se isso resultasse com toda a gente e fosse obrigação minha estar todos os dias de bem com a vida e com as pessoas. Logo eu, que costumo gostar muito de pessoas, mas que cada vez mais me farto delas e das suas teorias e das suas receitas de vida e de acharem que se eu fizesse o que elas mandam tudo seria mais feliz. Foda-se! Só me apetece gritar palavrões, assim todos de seguida e bem alto, mas em estando a escrever isto no café da fnac, com algumas pessoas à volta e musiquinha clássica de fundo, iria passar por maluca e isso é coisa que ainda não sou, mas para lá caminho a passos bem largos.
É possível dar espaço às pessoas para se sentirem mal, solitárias, amarguradas com vida, raivosas, irritadas? Se tudo correr bem, isto passa, há-de passar, mas pelo amor de deus, não me venham com a merda das receitas mágicas do anima-te, precisas é disto ou daquilo, como se isso resultasse com toda a gente e fosse obrigação minha estar todos os dias de bem com a vida e com as pessoas. Logo eu, que costumo gostar muito de pessoas, mas que cada vez mais me farto delas e das suas teorias e das suas receitas de vida e de acharem que se eu fizesse o que elas mandam tudo seria mais feliz. Foda-se! Só me apetece gritar palavrões, assim todos de seguida e bem alto, mas em estando a escrever isto no café da fnac, com algumas pessoas à volta e musiquinha clássica de fundo, iria passar por maluca e isso é coisa que ainda não sou, mas para lá caminho a passos bem largos.
sábado, 2 de novembro de 2013
Assim que cortamos a corda que nos sustenta, caímos do abismo. E o que nos assusta é olhar cá para baixo e não saber como ficaremos quando embatermos no chão. O que nos esquecemos é que durante a viagem, acabamos por flutuar e aplanamos no meio de um novo mundo. Depois sentimo-nos totalmente livres. E é aqui que começamos a ser de novo felizes. O que custa mesmo é a expetativa de cair no chão a alta velocidade, mas nem tudo é assim tão rápido nem tão mau. Há sempre o meio termos que nos aconchega. Eu que sempre fui tudo ou nada, branco ou preto, estou precisamente a meio caminho do chão.
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